
As peripécias que converteram Mallu Magalhães num fenômeno pop e ajudaram a implodir a lógica da indústria musical no Brasil
Armando Antenore
Neste mês, Dudi completa 47 anos. Engenheiro civil, possui uma pequena empresa que constrói condomínios em áreas de veraneio. Durante a infância e a juventude, estudou violão clássico e popular. Gostava de chorinho, de bossa nova e dos Beatles. Nas escassas horas livres que a faculdade lhe concedia, arriscava escrever umas canções e, com um amigo pianista, se apresentava em showzinhos universitários. “Minha técnica dava para o gasto”, conta. “O problema é que me faltava talento e coragem.” No palco, nunca conseguia se acalmar. “Ficava tenso, meus dedos travavam. E as canções que fazia… Redondinhas, corretas, mas extremamente insossas. Chatas… Medíocres!” O oposto do que identificou em Mallu naquela tarde. “Ela me apareceu com uma criação modesta, de dois acordes. Um nada. E, no entanto, o nada soava de maneira especialíssima. Percebi que um caminho promissor se abria.”
Só não imaginou que a promessa se realizaria tão rapidamente. A paulistana Mallu Magalhães, de 16 anos, inicia outubro como uma das atrações do Video Music Brasil, o badalado prêmio da MTV. A cantora foi indicada em três categorias: revelação, melhor show e artista de 2008. No dia 15, uma quarta-feira, disponibiliza para download algumas faixas do disco independente que gravou sob a batuta de Mario Caldato Jr. O currículo do produtor inclui trabalhos com os Beastie Boys, Jack Johnson, Seu Jorge e Bebel Gilberto.
Embora continue desenhando, esculpindo, restaurando banjos e violões, produzindo músicas e brincando de Lego, a menina acumulou proezas que a maioria dos cantores de sucesso leva um bom tempo para realizar. Sua página no MySpace, o site internacional de relacionamentos em que abrigou as quatro canções, atraiu mais de 1,9 milhão de visitas. O número impressiona se considerarmos que a carreira precoce de Mallu mira essencialmente o público brasileiro. No mesmo site, os perfis do requisitado Fresno, grupo gaúcho de rock que surgiu em 1999 e também prioriza o mercado interno, somam cerca de 470 mil acessos. Os de Caetano Veloso, 285 mil. E os de Marisa Monte, 200 mil. Por outro lado, os do Cansei de Ser Sexy — banda pop que, desde 2006, investe em extensas turnês pelo mundo — acusam 5,1 milhões de visitas.
Paralelamente à ascensão no MySpace, Mallu invadiu novas e ruidosas praias. Despertou discussões em blogs. Ganhou destaque nos principais jornais, revistas e sites noticiosos do país. Inspirou a fundação de fãs-clubes. Participou de programas na Globo. Arrancou elogios de Tom Zé. Ocupou palcos lendários, a exemplo do Circo Voador, no Rio de Janeiro. Virou trilha sonora de um comercial da Vivo. E deu uma palhinha em Janta, faixa do primeiro vôo solo de Marcelo Camelo, guitarrista do Los Hermanos (o álbum se chama Sou).
Assim que desembarcar nas lojas, em novembro, o CD da garota fechará o ciclo inaugural de uma trajetória tão espantosa quanto incerta. A guerrilheira terá fôlego para seguir adiante? Talvez um exame mais detalhado de como Mallu chegou até aqui ofereça pistas sobre o futuro. Quem esmiuçar os passos da cantora verá que a sorte e o ímpeto juvenil certamente a guiaram, mas também o carisma e uma pitada de estratégia.
O nascimento de um hit
O sol mal despontara e Mallu já pulava da cama. Os amigos ainda dormiam. Era julho de 2006, férias de inverno em Campos do Jordão (SP). Uma paisagem alpina emoldurava a casa que Dudi alugara. A exuberância do cenário, o calorzinho que afugentava o frio da noite e a convicção de que em breve a farra cotidiana recomeçaria deixavam a menina feliz. E felicidade não é coisa que se deva ignorar. Mallu, então com 13 anos, necessitava exprimir aquilo urgentemente. Pegou o violão e, à medida que improvisava uns acordes, cantarolou: “Tcha tcha tchutchura ba”. De repente, o “tchutchura ba” desembocou em “tchubaruba”. Mallu amou o som. Repetiu-o uma, duas, infinitas vezes. O emaranhado de vogais e consoantes não significava nada. Mesmo assim, traduzia perfeitamente a atmosfera daquela manhã. Tchubaruba, tchubaruba! Em torno do inusitado mantra, Mallu criou uma canção — em inglês, como de costume (“há sensações que só me atrevo a manifestar em inglês”). “If you are down, yes I will say tchubaruba/ If you don’t know where I am, I’ll be tchubarubing/ If you don’t know who you are/ You can tchubada, you can tchubaduba”, sussurrava o refrão. Se você está deprê, eu direi tchubaruba. Se você não sabe onde estou, estarei tchubarubando. Se você não sabe quem é, você pode tchubada, você pode tchubaduba.
“Uau! Parece que acertei”, festejou a garota, intimamente. Ela aprendia violão desde os 10 anos, arranhava o piano, a gaita, o banjo, e sonhava em compor à maneira do pai, que sempre tocou para a filha: Blackbird, dos Beatles;
O Leãozinho, de Caetano; e uma ou outra das tais bobagens que escreveu nos tempos de universidade. “Bobagens? Claro que não! Um repertório fabuloso! Meu pai é o primeiro artista por quem me fascinei. Johnny Cash, Bob Dylan, Neil Young, Zeca Baleiro, os Mutantes, todos só me conquistaram depois.” Quando concluiu Tchubaruba, Mallu finalmente avaliou que encontrara o mapa da mina. Suas poucas canções anteriores não a satisfaziam. Estimulada, entregou-se por inteiro às musas e, dali em diante, produziu mais de 40 composições, algumas também em português.
• Assista ao flash que recria a trajetória da cantora
• Leia a crítica do disco de estréia de Mallu Magalhães
fonte: Revista Bravo!












